Relembre a vida e o legado de Bill Cunningham, lendário fotógrafo de moda

5 Jul 2016

Com quase 40 anos de carreira no 'New York Times', ele voltou suas lentes para o estilo das ruas e registrou as transformações do modo de vestir

Fotógrafo de moda célebre e precursor do tipo de imagem conhecida hoje como de street style, Bill Cunningham morreu no sábado, 25, em Manhattan, aos 87 anos, após ser hospitalizado em decorrência de um derrame. Ele tornou a fotografia de moda sua própria forma de antropologia cultural nas ruas de Nova York, documentando as mudanças sociais de uma era para o The New York Times ao direcionar suas lentes observadoras para o que que as pessoas vestiam - fossem elas estilosas, exibicionistas ou apenas corretas. 

 

Cunningham era uma presença singular na cidade. Era facilmente encontrado, andando de bicicleta por Midtown, onde fazia a maior parte de seu trabalho de campo: sua figura magra e ossuda envolvida por sua jaqueta utilitária azul de trabalhadores franceses, calças cáqui e tênis pretos (ele próprio não era muito fashionista), com sua câmera 35 milímetros pendurada no pescoço, sempre pronto para o próximo 'statement' de moda aparecer em uma esquina.

 

Nada escapava de sua atenção: nem as pochetes, as bolsas Birkin, as camisas de seda brilhantes, os shorts fluorescentes de ciclistas. Em seus quase 40 anos de trabalho para o New York Times, o fotógrafo clicou a mudança do hábito de se vestir, que se distanciou da formalidade e se transformou em algo mais difuso e individualista neste tempo que chamamos de 'era do street style'. 

 

Um tempo em que falamos sobre "o desfile fora do desfile": as pessoas que se vestem para ser fotografadas por hordas de fotógrafos nas calçadas esperando para capturar as cada vez mais exageradas formas de se vestir para se sobressair. Vá a qualquer desfile e você pode encontrá-las: uma mulher ou um homem em um visual colorido e doido, em meio a um enxame de fotógrafos brigando pelo melhor clique e gritando "olhe para cá" ou "quem você está vestindo?".

 

Mas Bill Cunningham, que começou tudo isso, nunca esteve entre eles. Desde a sua morte, muitos memoriais e obituários o chamaram "o pai do street style", e de forma muito correta. Ainda assim, uma forma mais precisa de se lembrar dele provavelmente é como alguém que aplicou os dogmas do jornalismo visual à moda.

 

Ele começou a carreira como um repórter, acima de tudo, e suas fotografias eram simplesmente uma outra expressão da mesma disciplina: elas não era filtradas ou encenadas. Ele esteve entre os primeiros a reconhecer o valor de observar o que as pessoas vestem em suas rotinas, e entender que isso reflete a identidade e cultura, uma forma de comunicação usada por todas, e portanto um registro histórico crucial. 

 

Antes de existir Scott Schuman (do The Sartorialist), ou Tommy Ton, ou Phil Oh, existia Cunningham, andando de bicicleta, reportando aquilo que via: o idiossincrático e o ubíquo, mas, acima de tudo, o honesto. Seus sujeitos não eram aqueles manufaturados para captar seus olhos, mas o que as pessoas vestiam para se sentir parte de um grupo, ou se sobressair de um grupo, ou mesmo deixar sua marca registrada no mundo - seja em um baile de caridade de elite ou em uma esquina de comércio popular, não importa. 

 

Anna Wintour, editora da Vogue americana, é citada frequentemente por ter dito: "nós todas nos vestimos para o Bill". É um sentimento amoroso e genuíno - tanto a moda quanto a sociedade são perfumadas pelas mulheres que sonham ser fotografadas por Cunningham, e ser fotografada por ele se tornou quase como um selo de aprovação. Mas a verdade é que ele jamais teria gostado que alguém se vestisse para ele. Ele queria entender e registrar como elas se vestiam para elas mesmas.

 

Suas fotos ensinam que embora o que aparece nas passarelas seja interessante, o que acontece com as roupas depois - como elas eram usadas, ou não usadas - é o que realmente importa. Não é que ele rejeitasse a moda; ele a amava, com um entusiasmo sem fim para a descoberta. Mas ele entendia que o poder da moda é pessoal. As roupas são a linha de frente da comunicação; são a primeira coisa que dizemos uns aos outros sobre nós mesmos, e o primeiro julgamento que fazemos. Essa era a história dele. E é por isso que seus vídeos e colunas eram tão obsessivamente interessantes.

 

O street style tem se tornado um jogo de substituição, menos sobre o que é único e revelador e mais sobre marketing, com marcas enviando roupas às celebridades para que vistam em cliques teoricamente não estilizados - roupas que elas não escolheram, vejam bem, mas receberam (ou foram até mesmo pagas para vestir). Da mesma forma que os tapetes vermelhos se tornaram um veículo de propaganda, muitas calçadas também. Cunningham representava a verdade por trás de tudo isso. O seu legado é a nossa realidade, e a gente não deve esquecer.

 

Tradução de Marília Marasciulo

 

 

 

 

 

Fonte: http://emais.estadao.com.br/noticias/moda-beleza,fotografo-de-moda-lendario-bill-cunningham-morre-aos-87,10000059482

 

 

 

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