'É como andar em um campo minado', diz estudante que criou campanha contra o racismo na UnB (FOTOS)

7 Apr 2015

 

"Ah, branco, dá um tempo!" Esse é o título da campanha protagonizada por estudantes negros da Universidade de Brasília (UnB), a primeira federal a implementar cotas raciais no País. O ensaio fotográfico mostra frases e comentários que reforçam estereótipos negativos atribuídos aos jovens negros.

 

Os cartazes com declarações ouvidas pelos alunos da UnB escancaram o racismo cordial dos brasileiros. As imagens foram reunidas no Tumblr #ahbrancodaumtempo.

 

A responsável pela ação é a estudante Lorena Monique dos Santos. Enquanto cursava a disciplina Antropologia Visual, ela se inspirou no projeto da Universidade de Harvard “I, Am, Too, Harvard”, que busca ecoar a voz dos universitários negros.

 

Em entrevista ao Brasil Post, ela traçou um paralelo entre o preconceito sofrido por negros nos Estados Unidos e aqui no Brasil:

 

"Não vivo nas mesmas condições que as pessoas negras dos EUA ou da África do Sul, onde os sistemas racistas são muito mais explícitos e há uma separação efetiva entre as comunidades negras e as comunidades brancas.

Mas em relação ao racismo à brasileira, sinto que ele deixa as pessoas negras muito confusas. É como se andássemos em um campo minado sem entender exatamente o que acontece conosco."

 

 E a disparidade social, salarial e espacial que sublinha a tese de que pobreza tem cor no Brasil.

 

Enquanto 55% da população brasileira é formada por negros, o índice de pretos e pardos nas favelas é de 67%.

 

Lorena se inquieta diante dos números e dos rostos que vê na periferia:

 

"Vemos a população negra recebendo os piores salários, ocupando os postos de trabalho mais desvalorizados, crescemos sem ver pessoas negras na televisão e, mesmo assim, nos dizem todos os dias que não existe racismo no Brasil. E o que é pior: a maior parte da população negra acredita nessa história! É algo que nos confunde e nos divide."

 

 Neste ano, as ações afirmativas completam 11 anos na UnB. Os resultados já tornaram o campus mais diverso. Para Lorena, esse é apenas um primeiro passo para reduzir desigualdades.

 

"Não é possível acreditar que a exclusão social e racial gerada por 388 anos de escravidão, com mais 115 anos sem nenhuma política reparatória, possa ser corrigida com apenas 10 anos de cotas raciais. As cotas são uma medida emergencial e superficial, porque atingem somente a parte da população que consegue finalizar seus estudos nos níveis fundamental e médio, mas deixam de fora uma parcela muito grande da população negra, que é justamente a parcela mais fragilizada."

 Lorena acredita que a afirmação da raça ainda é imprescindível no Brasil de hoje por causa da "ilusão da democracia racial" — tese difundida pelo sociólogo Gilberto Freyre na década de 30.

 

"Acredito que a importância da afirmação racial vem no sentido das pessoas negras perceberem a existência das desigualdades sociais existentes entre os diferentes grupos étnicos que compõem a população brasileira e se organizarem na busca pelas soluções para estes problemas (...) Sinceramente meu trabalho é no sentido da construção de um mundo onde a cor, o sexo, o gênero ou qualquer outro traço distintivo de um indivíduo não faça nenhuma diferença em relação à sua posição social. Acredito que a construção desse mundo seja possível, mas o caminho a ser percorrido ainda é bem longo."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: http://www.brasilpost.com.br/2015/04/04/racismo-unb_n_7003848.html?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004

 

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