Como encontrar a própria fotografia?

23 Apr 2014

Foto: iStock Photo

 

O colaborador da revista Photos & Imagens J.R. Comodo comenta como o fotógrafo pode se encontrar na fotografia 

 

Mais uma vez o artigo desta edição estava quase pronto, quando um e-mail me levou a mudar tudo. O Alfredo Malfatti, fotógrafo no Recife, assistiu à minha palestra no Estúdio Nordeste e vem acompanhando esta série de artigos sobre a criatividade, razão pela qual me escreveu questionando o seguinte: “- Comodo, como faço para encontrar a minha fotografia?

 

”Imediatamente lembrei de uma das muitas conversas que tive com um dos meus enfermeiros ao longo da minha hospitalização entre setembro e novembro de 2010. Lá, na UTI, aprendi que “somente encontrará a sua vida, aquele que a tenha perdido”. Eu não consegui evitar a transposição deste ensinamento para a fotografia. E, então, abriu-se a porta para o artigo desta edição, onde vou escrever sobre a importância de buscarmos fazer da “nossa fotografia” – assim como da “nossa vida” – uma experiência direta, imediata, não-filtrada pelo intelecto. Aliás, este é um dos princípios do Zen: transcendência do intelecto, desprezo pelas palavras, silêncio, gestos iluminantes e iluminados, comunhão com o cosmo. Obviamente, este assunto é por demais complexo para ser esgotado em uma ou duas páginas de texto, mas certamente abrirá para vocês, leitores, um viés de pesquisa apaixonante e capaz de mudar definitivamente a relação de vocês com a fotografia. Acreditem: está mudando a minha.

 

Há um livro que recomendo para todos os meus alunos: “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel (um filósofo alemão que viveu décadas no Japão em busca da compreensão do Zen). Lá está um dos ensinamentos mais bacanas que já me foram transmitidos: quando o arqueiro Zen dispara a flecha, ele atinge a si próprio. Nesse momento mágico, ele se ilumina.

 

Assim deve ser com o fotógrafo que seja o senhor da sua própria fotografia. Não há como seguir neste artigo sem transcrever o primeiro parágrafo daquela obra que, espero, seja lida por todos vocês:

 

A meta do arqueiro não é apenas atingir o alvo; a espada não é empunhada para derrotar o adversário; o dançarino não dança unicamente com a finalidade de executar movimentos harmoniosos. O que eles pretendem, antes de tudo, é harmonizar o consciente com o inconsciente. Para ser um autêntico arqueiro, o domínio técnico é insuficiente. É necessário transcendê-lo, de tal maneira que ele se converta numa arte sem arte, emanada do inconsciente.

 

No tiro com arco, arqueiro e alvo deixam de ser entidades opostas, mas uma única e mesma realidade. O arqueiro não está consciente do seu “eu”, como alguém que esteja empenhado unicamente em acertar o alvo. Mas esse estado de não-consciência só é possível alcançar se o arqueiro estiver desprendido de si próprio, sem, contudo, desprezar a habilidade e o preparo técnico. Dessa maneira, o arqueiro consegue um resultado em tudo diferente do que obtém o esportista, e que não pode ser alcançado simplesmente com o estudo metódico e exaustivo.

 

Para desfrutarmos plenamente do poder incrível da nossa criatividade e conviver em harmonia com a “nossa fotografia”, acredito que devamos reconquistar a ingenuidade infantil – e para isso é necessário muito exercício na arte de nos esquecermos de nós próprios.

 

De certa forma, isso sinaliza que talvez o fotógrafo deva deixar de pensar sobre as estrelas, sobre as paisagens, sobre as ondas do mar que tanto admira e compreender que ele mesmo faz parte daquela estrela, daquelas ondas e daquela paisagem, e que o universo nada mais é do que uma enorme tela sobre a qual ele – fotógrafo – aplica recortes de sua própria vida. Quando isso acontece, o fotógrafo passa, então, a pensar mais em si próprio, na sua essência.

 

A câmera fotográfica e aquela mala cheia de objetivas e acessórios, então, se transformam em meros pretextos para vivenciarmos algo que também poderia ocorrer sem eles.

 

Acredito que o que obstrui o caminho é a vontade demasiadamente ativa. Ou seja, a vontade desesperada de ser criativo acaba sendo o maior obstáculo à criatividade, que não deve ser buscada com fórceps, mas sim colhida a partir de um fluxo natural. Ouso sugerir que a arte genuina não conhece nem fim nem intenção.

 

Tente, um dia, observar um mestre oriental de arranjos florais, que começa a aula desatando cuidadosamente a fita que mantém as flores e os ramos unidos e, depois de enrolá-la com esmero, deposita-a de lado. Em seguida, ele examina cada um dos ramos, escolhe os que lhe parecem melhor, curva-os atentamente, dando-lhes a forma segundo o papel que irão desempenhar no conjunto, e finalmente coloca-os num vaso previamente escolhido. Contemplando o resultado, podemos dizer que o mestre adivinhou os obscuros sonhos da natureza.

 

Talvez os fotógrafos que caminham em busca “da própria fotografia” devam compreender que aquele ritual com os preparativos – essencial aos mestres orientais das artes – tem a virtude de sintonizá-los com as suas criações artísticas. O relaxamento decisivo, o equilíbrio de todas as suas energias e a concentração, sem os quais nenhuma obra autêntica se realiza tem início naquela serena tranquilidade com que os preparativos são tratados.

 

Quanto mais obstinadamente alguém se empenhar para ser criativo e dominar a técnica na busca de fotografias fantásticas, menores as possibilidades de atingir os seus objetivos. Ouso sustentar que o mais alto estado espiritual do artista só é alcançado quando se mesclam, num único corpo, os preparativos e a criação, o artesanato e a arte, o material e o espiritual, o abstrato e o concreto.

 

Voltando às primeiras linhas, quando alguém pretende iniciar a busca “pela própria fotografia”, deve, antes de mais nada, compreender em que momento e por quais fatores se distanciou da sua essência e daquela fotografia que agora busca. Antes de identificar os motivos que o levaram à perda, ainda que encontre algo ao longo de sua busca, voltará a se perder. Isso pode soar estranho e místico demais para os fotógrafos mais ansiosos e não acostumados com alguns princípios da filosofia oriental, mas posso garantir que é lá, nos ensinamentos dos mestres das artes orientais, que estão as respostas que indicam o caminham para a “própria fotografia”.

 

Fonte: http://photos.uol.com.br/materias/ver/95363.

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