Sebastião Salgado num retrato verbal de si

Fotógrafo brasileiro multipremiado e de renome internacional, Sebastião Salgado revela no livro “Da Minha Terra à Terra” histórias de sua vida pessoal e profissional, colhidas em suas andanças pelo mundo em busca de fotografias



Sinésio Dioliveira Especial para o Jornal Opção


“Da Minha Terra à Ter­ra”, livro lançado pela E­ditora Paralela, é fruto de uma série de entrevistas que Sebastião Salgado, o mais premiado dos fotógrafos brasileiros e de renome internacional, concedeu à jornalista Isabelle Francq. Na apresentação da obra, ela ressalta que a escreveu para “fazer a voz de Sebastião fa­lar” e assim lhe permitir mostrar “sua história pessoal, as raízes políticas, éticas e existenciais de seu engajamento fotográfico” até então “ignoradas”, fato, segundo Francq, contrário às suas fotografias, que são conhecidas e premiadas mundialmente.


Dividido em 25 capítulos, “Da Minha Terra à Terra” tem início com “Para começar: ‘Gênesis’”, no qual Salgado, já na primeira frase, observa que a paciência é uma característica imprescindível ao fotógrafo: “Quem não gosta de esperar não pode ser fotógrafo. (…) É preciso descobrir o prazer da paciência”. Para ilustrar a sua observação, ele fala de sua ida em 2004 à Ilha Isabela, em Galápagos, onde tentou fotografar logo de imediato uma tartaruga enorme e não teve êxito, pois, na medida em que se aproximava do animal, ele fugia. Salgado conta que teve de se fazer uma tartaruga para conseguir registrá-la: “Fiquei agachado e comecei a caminhar na mesma altura que ela, com palmas e joelhos no chão”.


A escolha de Galápagos para dar início à série “Gênesis”, conta o fotógrafo, tem a ver com o périplo científico realizado pelo naturalista britânico Charles Darwin aos 22 anos, de 1831 a 1836, a bordo do navio Beagle, que percorre a costa do Pacífico e a América do Sul, que é onde entra Galápagos, na qual Salgado ficou por três meses. Ele cita que “decidiu seguir os passos de Darwin” após a leitura do livro “A viagem do Beagle”, que é um relato darwiniano nas áreas de biologia, geologia e antropologia, o qual fundamentou sua “Teoria da Evolução”, que serviu de base para seu livro “Origens das Espécies”.


A reputação profissional de Salgado é tanta que ele é tema do documentário “O Sal da Terra”, que tem a direção do alemão Wim Wenders e do brasileiro Juliano Salgado, filho mais velho de Sebastião, que já acompanhou o pai em várias “reportagens” (termo usado pelo fotógrafo) na Ásia e África. “Ele conhece todos os meus gostos em imagens e viagens. Com certeza não foi por acaso que se tornou cineasta”, diz Salgado. “O Sal da Terra”, que é uma produção da companhia francesa Decia, foi um dos pré-indicados para o Oscar 2015, isso num universo de 134 filmes.


Seu outro filho é Rodrigo Sal­ga­do, um jovem de 23 anos, que é portador da Síndrome de Down, termo que Salgado não usa no livro, mas sim a palavra “trissômico”. Palavra esta que vem de trissomia, que é a presença de três cromossomas de um tipo específico, quando o certo são dois. Rodrigo, segundo o pai, veio para melhorar a vida dele e da esposa, Lélia Wanick Salgado, que é ar­quiteta e autora dos projetos gráficos da maioria dos livros do marido, que a define como “esposa, companheira e sócia em tudo na vida”. Sobre a vinda do filho, diz: “Ad­quiri­mos [ele e Lélia] uma visão de mun­do completamente diferente daquela que tínhamos quando eu era ‘normal’ e tínhamos apenas um filho ‘nor­mal’ [Juliano] e vivíamos num mundo de pessoas supostamente ‘normais’”.


O nascimento de Rodrigo fez com que o casal ficasse decepcionado com alguns amigos bem próximos, que se afastaram deles. “Alguns não conseguiam vê-lo. Isso me fez sofrer muito”, relata Salgado, que, mesmo en­tristecido com o distanciamento desses amigos, diz que “é preciso compreender” para não se tornar “amargo”. O casal inclusive chegou a pensar em fazer “uma cirurgia reparadora para atenuar os efeitos da trissomia no rosto” do filho, mas os dois perceberam que operação “não fazia sentido” para Rodrigo, mas apenas para eles.


Na série Gênesis, Salgado troca o foco das questões sociais para fotografar animais, vegetais



Sobre sua infância, vivida em Aimo­rés, cidade mineira, Salgado conta que “a Mata Atlântica cobria a metade do vale”, onde seu pai tinha fazenda, “mas isso antes de o Brasil entrar numa economia de mercado e começar, como no resto do mundo, a devastar suas florestas”. Um tom saudosista de sua infância, marcada de “lembranças maravilhosas”, marca seu relato. “Minha infância ainda é, para mim, um período fabuloso. Continuo nutrindo um amor imenso por aquela terra”, conta. E certamente é esse “amor imenso por aquela terra” que fez com que Salgado e Lélia adquirissem a propriedade onde Salgado nasceu e assim nela criassem o Instituto Terra, que fez voltar a vida à “terra feia e pobre”, aspectos resultantes do desmatamento.


Esse gesto salgadiano não deixa de lembrar a atitude do personagem machadiano Bentinho, do livro “Dom Casmurro”, que, para “atar duas pontas da vida” (a velhice e a adolescência) comprou a casa em que viveu na aurora da vida. Ao contrário do personagem ficcional, que não se sentiu realizado em seu propósito e chegou a dizer que o que estava fazendo era como colocar tinta preta nos cabelos brancos, Salgado está muito feliz com a transformação ambiental que ele e a esposa promoveram via Instituto Terra, que conseguiu recompor o que a fazenda foi. A tinta no cabelo de Bentinho nos leva a Salgado, que não tem problema de calvície. Ele simplesmente passou a raspar os cabelos todos os dias desde 1994, quando teve os cabelos e barba “infestados por parasitas”.


Também vamos encontrar no livro um Salgado envolvido com a vida política do Brasil, e Lélia também, e isso no período militar; fato que levou os dois a saírem do país: foram para França e até obtiveram cidadania francesa. Salgado, que diz ter sido espionado pelo SNI (Serviço Nacional de Espionagem) se declara alegre em “ver, hoje, que aqueles que foram perseguidos, torturados, espancados estão em cargos de poder no Brasil”. Sobre Lula, diz ele: “(…) tornou-se o maior presidente que o Brasil já teve”. Dilma também entra na sua relação de elogios.


O atentado do ex-presidente Ronald Reagan, ocorrido em março de 1980, também foi alvo das lentes do fotógrafo, que faz o seguinte relato do episódio: “Vi seis tiros de revólver serem disparados sobre o staff presidencial. Reagan não foi atingido diretamente, mas uma bala ricocheteou no veículo presidencial e se alojou em seu peito”. Por ter conhecido um fotógrafo que sempre citava que havia registrado a morte de Bob Kennedy (irmão do ex-presidente americano John Kennedy também assassinado), isso fez Salgado abandonar esse tipo de trabalho. Decisão tomada por ele e esposa para evitar que ele ficasse conhecido como o fotógrafo que registrou o atentado contra Reagan.


Registro do atentado contra o ex-presidente americano Ronald Reagan, em 30 de março de 1981

Há um relato interessante de Sal­ga­do sobre sua entrada na era da fotografia digital. Na era analógica, a cada vi­agem sua pelo mundo, só de bagagem de mão, ele levava 28 quilos de fil­me. Só que ocorria o transtorno de passar pela fiscalização de aeroportos, que usava raio X na averiguação de ba­gagem, e a luz do aparelho, segundo Sal­gado, acabava alterando as gamas de cinza do filme. Ao aderir ao mun­do digital, teve de levar consigo nas vi­a­gens por várias países africanos al­guns painéis solares. “Para carregar as baterias, transportávamos painéis solares, muito leves e dobráveis, e pequenas baterias secundárias para armazenar energia”, conta. O fotografia digital evitou muitos transtornos a Sal­gado, que se diz apegado ao mundo preto-e-branco: “Não preciso do verde para mostrar as árvores, nem do azul para mostrar o mar ou o céu”.


Lógico que o livro “Da Minha Terra à Terra” deixou muitos fatos da vida de Salgado de fora. Fato também presente neste texto devido ao espaço destinado a ele. Em síntese, pode-se dizer que a obra é um retrato interessante de Salgado, só que não de corpo inteiro, mas o que mostra é interessante e faz as pessoas que admiram o fotógrafo a admirá-lo ainda mais. Na conclusão da obra, ele fala da prisão das pessoas entre paredes, que assim “erguem barreiras” entre elas e a natureza. E isso as tornam “incapazes de ver, sentir… de ver pássaros pelo vidro da janela e imaginar que esse pássaro é o amor do outro, com o qual faz amor; que ele ama seus filhotes, que constrói seu ninho naquela árvores , que depende do vento”. Salgado se diz admirado com a árvore, dizendo que ela “é a única máquina capaz de transformar o CO2 em oxigênio”.


Na série Êxodos, Sebastião Salgado direciona sua lente para o sofrimento do homem



Fonte: http://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/sebastiao-salgado-num-retrato-verbal-de-si-23268/



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